21.12.15

“O preparo pessoal não supera a construção coletiva” ou “Sobre a candidatura de Ciro Gomes”

Em contraste com a falta de pulso tantas vezes demonstradas por esse governo, as declarações firmes de Ciro Gomes fazem a militância de esquerda muitas vezes vibrar. Sem o peso da responsabilidade de conduzir o processo, ele está do lado de fora dizendo o que é preciso ser dito por alguém, mesmo que muitas vezes não possa ser colocado em prática o que ele diz. É o comentarista descolado palpitando sobre um time de treinador retranqueiro.

Ciro tem toda a legitimidade para, mais uma vez, tentar se eleger presidente da República. Bem sucedido como prefeito, governador e duas vezes como ministro, conhecedor a fundo do Brasil, sabe dos desafios e é um estudioso das soluções. É uma pessoa preparada para tarefa.

Seus descaminhos partidários demonstram mais a falência do nosso sistema político do que um desvio de conduta pessoal. Seu temperamento impulsivo, tantas vezes apresentado como argumento para veto, foi de grande utilidade em momentos difíceis como a crise do mensalão e a recente tentativa de golpe. Foi inciso e leal, até nas críticas.

O erro que pode lhe causar a terceira derrota é acreditar que sua trajetória, seu preparo e suas demais qualidades pessoais se sobrepõem à construção de um projeto coletivo. Lula não é Lula apenas pela sua voz rouca e sua história de retirante vencedor. Lula se fez líder de um partido estruturado, da maior central sindical do país, de estudantes, de intelectuais da esquerda, dos setores progressistas da Igreja.


Para ser um candidato a presidente competitivo por fora do status quo é preciso ter um alicerce político e social que Ciro não tem e não parece preocupado em ter. Se ele acreditar, como disse em entrevista recente, que a base social do PT está perdida, vai fazer um belo papel na campanha, mas vai perder de novo. E talvez percamos todos.

15.11.15

Por que só Paris?

Por que não se solidarizar também com Mariana-MG? E os universitários cristãos no Quênia mortos pelo mesmo Estado Islâmico? E as centenas de alunas no nordeste da Nigéria mortos pelo Boko Haram? E as crianças palestinas vítimas dos bombardeios israelenses? E os 11 jovens assassinados na periferia de Fortaleza-CE? E os 20 mortos em Osasco e Barueri? E o Raimundo, pedreiro assassinado na porta da minha casa numa tentativa de latrocínio? E o sujeito transtornado em Itu que foi assassinado pela polícia ao tentar se suicidar (!)? E os dois mortos na Pavuna porque o policial confundiu um macaco hidráulico com uma arma?

São tantas tragédias ao redor do mundo que deveríamos, para manter a coerência, nos manter constantemente indignados. Mais do que indignados, precisamos agir para que menos atrocidades aconteçam.

Deveríamos pactuar entre nós que todos tenham direitos fundamentais independente da sua origem, etnia, orientação sexual, gênero, classe social ou qualquer outra forma de discriminação.

Vamos elaborar uma proposta baseada em valores racionais que passem a iluminar a humanidade e que garanta a todos o direito à vida, à propriedade, à liberdade de credo, à liberdade de expressão. Podemos chama-la, talvez, de Declaração dos Direitos do Homem* e do Cidadão (*na acepção geral de humanidade).

Isso foi feito em 1789, encerrando a idade das trevas no ocidente e fundando a sociedade contemporânea. Isso foi feito na Revolução Francesa e só por isso já vale a pena colocar essas três cores no Facebook, em monumentos e onde mais pudermos quando civis daquele país são atacados e mortos por um grupo de radicais islâmicos que quer obrigar o mundo a viver sob os costumes da sua interpretação do alcorão e sem as garantias fundamentais que todo ser humano deve ter.

29.10.15

Governo isolado, oposição sem rumo e a necessidade de haver alternativa

A menos de um ano das eleições municipais, Chapadinha clama por uma alternativa ao que está posto. 

O governo perdido em picuinhas, perseguições e mentiras construiu o isolamento político da prefeita. Ela criou brigas desnecessárias com todo mundo por achar que poderia mandar na cidade como mandava nas suas empresas. Brigou com o governo do estado, com os dois deputados estaduais da região, com o ex-prefeito que a apoiou e até com a presidente da Câmara que ela ajudou a eleger. 

Já são nove dos quinze vereadores a se declarar abertamente fora da base aliada à prefeita (mais um já seria número suficiente para pedir seu afastamento do cargo). Isso sem falar de um sem número de secretários e aliados que continuam no governo aguardando o momento certo para abandonar o barco. Ou a arca. 

Seria até de se duvidar que a prefeita tivesse a intenção de disputar a reeleição, mas, substituindo-a ou não, o grupo que hoje comanda a prefeitura parece apostar na força da máquina e do dinheiro para ganhar a eleição. Estão embriagados pelo poder, sem perceber que ele é passageiro.

Os "cachorros grandes" da oposição, por outro lado, estão completamente perdidos e não é de hoje que eu venho avisando. Motivados majoritariamente por ódio e vingança, seus líderes usam a tribuna da Câmara e os blog's para atacar a prefeita sem apresentar uma proposta concreta para a cidade e, não raro, com o uso de mentiras absurdas.

Falam em licitações como se fossem gastos realizado, anunciam construção de creches na periferia como se fosse erro do governo, comemoram derrotas do município. Já se chegou ao ponto de vereador dizer que iria a Brasília para tentar impedir a vinda do curso de medicina para o município para evitar que a prefeita lucrasse politicamente com a provável vitória que deveria ser de todos. 

Chefiada por quem já comandou prefeituras daqui e das redondezas, essa oposição não pode iludir ninguém. As figuras que a lideram não impõe a obrigação de cívica de união em torno delas, mas de se criar alternativa.

Me dedico hoje à construção de um programa de governo popular para ser apresentado ao povo de Chapadinha por uma candidatura do campo de esquerda. Aprendendo com os acertos de gestões passadas, mas sem repetir seus erros. 

Essa proposta institui a educação pública como prioridade máxima para a construção um futuro melhor e mais justo com um novo modelo que começa pelo Programa de Seleção dos Gestores Escolares, já apresentado por mim na Câmara, mas vai além com o aumento da autonomia pedagógica, administrativa e financeira escolar, com metas nos exames de avaliação, a nucleação do ensino no campo e a constante valorização dos professores, como ocorreu no governo Magno Bacelar, cujo legado positivo precisa ser lembrado.

Esse governo deve ter articulação, preparo e força para trazer obras e recursos federais e estaduais e por em práticas outras propostas já rejeitadas pela atual administração como a entrega da gestão do Instituto de Previdência aos servidores municipais e o orçamento participativo com audiências públicas nos bairros. Assim, o povo não terá tudo o que quer, mas terá aquilo que mais precisar. 

Três deverão ser os princípios fundamentais a orientar o novo governo: Transparência efetiva à administração pública, diálogo permanente com o cidadão e com as entidades da sociedade civil e a não perseguição a adversário (sim, ainda assim, haverá adversários). 

Essas propostas não encontram respaldo nos grupos tradicionais, pois eles formam duas faces da mesma moeda a duelar pelo poder municipal com os mesmos objetivos. Para fazer de Chapadinha uma cidade mais digna para todos, não basta derrotar Belezinha, é necessário derrotar também quem fez e quer voltar a fazer pior do que ela. 

14.7.15

A arca da muié ou a canoa furada dos cachorros grandes?

Chapadinha é uma cidade sem sorte ou sem juízo. Escrevi há pouco mais de um mês que a nossa tarefa em 2016 seria derrotar a prefeita Belezinha com algo melhor, mas fui surpreendido com a resposta: candidaturas de pessoas honestas e honradas devem ser gentilmente ignoradas. 

Em seguida veio uma lista com as opções que podem ser levadas em alguma consideração para enfrentar a prefeita, os cachorros grandes. Sejamos sinceros, entre esses, os que não estão inelegíveis são (muito) piores do que Belezinha. 

Ainda assim, para meu desencanto, a maior parte da oposição decidiu que a tarefa é derrotá-la a qualquer custo, mesmo que seja para colocar em seu lugar alguém com os mesmos ou piores defeitos que ela tem. Quem vai se arvorar de coerente depois de passar quatro anos acusando Belezinha de corrupta e terminar votando no "deputado fantástico"? Ou, em nome dos professores e demais trabalhadores, votando em quem deixou os salários atrasados? Ou ainda acusando a prefeita de autoritária e desrespeitosa pra terminar votando no deputado coronel?

Num momento em que avançam as forças de direita e conservadoras em todo o Brasil, são  essas as opções que temos para apresentar a Chapadinha?

Ora, não é de se admirar que tenhamos perdido lideranças e tantas pessoas já tenham decidido "entrar na arca da muié", mesmo sem a prefeita ter tido a humildade até aqui de reconhecer os erros cometidos, que não são poucos. É fácil acusar quem fez outra opção das piores coisas, difícil é reconhecer que, na disputa entre o ruim e o pior, Belezinha vai se consolidando como favorita para a eleição do ano que vem, não pelas obras que tem realizado, mas porque a oposição abusa do direito de errar. Enquanto ela, do seu jeito, tenta acertar o compasso, nós não sabemos nem que música está tocando.

Da forma como as coisas estão sendo construídas, não é apenas difícil ver os diferentes grupos se unindo para eleição, é impossível imaginar permanecermos unidos depois da vitória. Em menos tempo, a briga será pior do que aquela que gerou o racha entre a prefeita e seu maior cabo eleitoral. 

Há meses venho alertando para esses descaminhos que a oposição tomou e nenhuma correção foi feita. Não tenho feito oposição a Belezinha durante esses anos (tendo feito as mais graves e documentadas denúncias que essa administração sofreu) para terminar sendo chefiado por quem nada tem a haver com o tipo de oposição que fizemos até aqui, ou que eu acreditava que estávamos fazendo.

Me desculpem se falta diplomacia nas minhas palavras, mas digo o que outros também pensam. Esses outros, com a ilusão de que a união da oposição pode se dar em torno de si, mantém as palavras amenas, não vetam ninguém, dizem que podem votar em qualquer um. Eu, sem pretensões pessoais, tenho a liberdade de dizer o que desagrada aos dois lados desse debate: Em 2016, mais uma vez, a opção será de redução de danos e com os olhos voltados para 2018 e 2020.

Onde foi que eu errei?

Não posso me limitar a reclamar sem admitir que também tenho culpa por essa perda de rumo. Já tive força suficiente dentro da oposição para falar sem ser ignorado, mas tomei decisões erradas em momentos errados, principalmente no que diz respeito à candidatura a deputado que me vi obrigado a lançar, mas, pelo menos, essa decisão serviu para mostrar que não devo obediência a ninguém, não tenho chefe político, não faço política onde não sou respeitado e tenho coragem para enfrentar qualquer desafio, inclusive mais uma candidatura. 

1.7.15

Eu queria um referendo sobre maioridade penal

Quando foi marcado o referendo sobre a comercialização de armas, a maioria absoluta da população era a favor da proibição. Meses de debate depois, a proposta foi derrotado no voto.

Duvido que a proposta de reduzir a maioridade penal resistisse a alguns meses do país aprofundando esse debate que tem se dado de maneira tão rasteira.

E digo porque já fui um ferrenho defensor da redução da maioridade penal. Aliás, já fui um admirador de jornalistas estilo Datena, já bradei com orgulho que "direitos humanos são para humanos direitos", já daí tomei uma atitude radical. Ler.

E quanto mais li, mais percebi o quão pouco eu sabia e ainda sei. Criei outro entendimento da sociedade e do ser humano e hoje sou contra a redução. Posso até abrir mão desta minha convicção, mas em nomes de argumentos plausíveis. Não recuo pela afirmação rasa de que quem tem a minha opinião defende a impunidade.

Alguém tem coragem de dizer que os bispos da Igreja Católica defendem bandidos, dada a posição pública da CNBB sobre o tema? A Ordem dos Advogados do Brasil, a União Nacional dos Estudantes, a UNESCO, o governador Flávio Dino, até Joaquim Barbosa (!), ídolo da maioria de vocês. Estes são os defensores de bandidos no Brasil?! 

Sérios, honrados e amantes do povo são Eduardo Cunha, Paulo Maluf, Bolsonaro, Alberto Fraga, Aluísio Mendes e essa corja de achacadores que joga para platéia em busca dos votos de vocês?

Quem aí pode dizer que reduzir a maioridade tem alguma relação com a solução dos problemas da criminalidade quando os países que tomaram essa medidas tiveram aumento da criminalidade, e alguns já voltaram atrás?

Eu apelo a quem se propõe racional, a quem quer debater tema tão relevante com base em argumentos e pergunto: Deve o Estado servir como instrumento de vingança? Deve o Estado abrir mão de proteger aqueles que sabidamente estão em outro estágio de desenvolvimento? Deve a Constituição ser mudada com base na exceção, no clamor da comoção?

Procure se informar sobre o que o Sinase, sobre o ECA, sobre o quanto temos falhado na proteção dos nossos jovens e na punição dos delinquentes juvenis e saia do lugar comum que defende mais encarceramentos, de mais jovens, mais negros, como a solução para os nossos problemas. 

Foi essa visão que nos trouxe a esses dados de guerra civil, e não vamos sair deste quadro se não enxergamos o problema da segurança pública como passaram a enxergar os países que deram certo nessa área e aí sim poderemos levar todo o povo brasileiro a, quem sabe, decidir num referendo.

24.5.15

Geração descartável


"Desenvolvemos a velocidade, mas isolamo-nos uns dos outros.
A maquinaria que nos poderia dar abundância deixou-nos na penúria.
Nossos conhecimentos fizeram-nos cépticos; nossa inteligência, cruéis e severos.
Pensamos muito e sentimos pouco."


O trecho acima é do discurso de Charles Chaplin no filme "O Grande Ditador", de 1940. Depois de 75 anos, o discurso é ainda mais atual do que à época. 

Na mesma fala, Chaplin cita o rádio e o avião como exemplos de invenções que aproximaram pessoas distantes. O que diria hoje na era das redes sociais, das informações instantaneamente espalhadas? 

Pensamos ainda mais, sentimos ainda menos. 

A forma de interagir com o meio modifica a nossa forma de interagir um com o outro. A velocidade dos acontecimentos e das informações não nos permite aprofundar em nada. Nos fechamos ainda mais em nós mesmo e na nossa visão estreita e sem base sólida do mundo ao redor.

Não há meio-termo ou moderação. Cada experiência é tida como a melhor ou a pior pela qual já passamos. Idolatramos ou odiamos quem mal conhecemos. Encontramos o grande amor das nossas vidas umas três vezes por ano. 

Qual será o futuro dessa geração? Como será a velhice das pessoas em famílias cada vez menores e mais dispersas se a busca pela felicidade instantânea não nos permite "perder tempo" consertando algo que pode ser rapidamente substituído.


Nos tornamos cada vez mais superlativos, superficiais e egoístas.

Tanta informação e tão pouco conhecimento.
Tanta gente e tanta solidão.





23.3.15

Eleição proporcional, sem coligação e com partidos democráticos

A disputa que se trava nos debates sobre a reforma política entre eleição proporcional, distrital ou em distritão não é mera formalidade de método de soma de votos, mas de concepção política.

Na eleição distrital é eleito o mais votado entre os candidatos de uma determinada região. Assim, a votação é meramente geográfica. Mesmo que nenhum candidato nas redondezas me represente, eu estarei preso a votar e ser representado por um deles, mesmo que alguém de outra região do estado defenda as mesmas bandeiras que eu defendo ou faça parte da mesma categoria que eu quero ver representada, estarei impedido de dar meu voto consciente a ele.

No chamado distritão, a votação não é geográfica, mas personalista. Se há 42 vagas, os 42 candidatos que receberam mais votos individualmente estão eleitos. Aí não importa o que cada um defenda, não importa quantos votos cada proposta tenha recebido, não importa nenhum debate que não gire em torno da personalidade com um belo sorriso na tela. A Câmara Federal deixaria de ter uma imoral quantidade de 28 minorias para ter 513 minorias.

O único sistema que permite o voto consciente em propostas, programas é o sistema proporcional. Se determinada proposta tem metade dos votos, metade das cadeiras devem ser ocupadas por quem as defende. Não são as pessoas que devem representar a sociedade, mas as ideias.

O que desvirtua o sistema proporcional são as coligações, que são formadas com base em negociatas, sem nenhuma preocupação programática e devem ser extintas pela reforma.

Democratização dos partidos

Eleições proporcionais sem coligações levarão a política brasileira a uma cena mais racional. Garantirá o pluripartidarismo, mas com menos legendas no Congresso Nacional e, portanto, mais governabilidade.

Essa mudança, contudo, deve ser acompanhada de uma reformulação do caráter que os partidos políticos tem no Brasil. O princípio da autonomia partidária é usado como pretexto para termos legendas que são verdadeiros balcões de negócios.

A maioria não tem programa definido, apenas um documento genérico que justifique formalmente sua existência. O que há, muitas vezes, é apenas uma pasta debaixo do braço do dirigente nacional da legenda. Com autonomia para definir o funcionamento do partido, esse dirigente age como proprietário. Aluga os diretórios estaduais a algumas lideranças, de preferência um deputado federal que ajude a engordar a fatia do fundo partidário que vai pra legenda. Esse locatário estadual age da mesma maneira com os diretórios municipais, dá o controle a quem achar melhor em troca de apoio para suas candidaturas e pretensões políticas.

Na última campanha eleitoral, aqui no Maranhão, sob aplausos dos presentes, um presidente estadual de um partido anunciou durante um comício no interior que, a partir daquele momento, estava dissolvido o diretório municipal porque os dirigentes não estavam presentes naquele ato.


Para termos um sistema verdadeiramente aberto e democrático, os partidos políticos têm que ser abertos e democráticos. Não podem pertencer à sua direção, mas à parte da sociedade que se sente representada por aquele programa. Se não houver essa obrigação legal, as direções dos partidos que sobreviverem com representatividade comporão uma verdadeira oligarquia nacional.

12.3.15

O mal que eles tentam reacender

A história da República brasileira é um história de golpes, contragolpes e tentativas de golpes. Desde sua instalação, passando pela eleição sob ameaça do Marechal Deodoro da Fonseca na Constituinte de 1891 e pelo golpe que o mesmo viria a sofrer alguns meses depois.

O presidente Getúlio Vargas resumiu o clima político com a frase: “No Brasil, não basta vencer a eleição, é preciso ganhar a posse”. E não é pra menos. Assim, como vários outros presidentes, Vargas foi alvo da lógica golpista eternizada por Carlos Lacerda. “Getúlio não deve ser candidato. Se for candidato, não deve ser eleito. Se for eleito, não deve tomar posse. Se tomar posse, não deve governar”.

Assim tentou se fazer 1922 com Arthur Bernardes, e se conseguiu em 1930 com Júlio Prestes. Golpista de 30, Getúlio Vargas foi alvo de tentativa de golpe em 1932 e 1935, deu golpe em 1937 e foi deposto em 1945. De volta pelo voto, se suicidou em 1954 para evitar nova deposição.

Os golpistas de 1954 foram os golpeados de 1955 quando o Marechal Henrique Teixeira Lott agiu preventivamente para garantir a posse de JK. Em 1961, foi Jânio Quadros tentou um golpe ao renunciar com a intenção de voltar com poderes extraordinários. Planos furados, deram em outro golpe, desse vez consentido, com a implementação do parlamentarismo.

O golpe de 1964 foi o início de uma série de golpes com os Atos Institucionais. Principalmente o AI-2, em 1965, e o AI-5, em 1968. Passado o ápice da repressão e iniciado o lento processo de reabertura, a linha dura ainda tentou derrubar Ernesto Geisel na demissão do ministro Silvio Frota em 1977.

De lá pra cá, a duras custas, não tivemos mais golpes. O resgate da autoridade da Presidência da República sobre as Forças Armadas neste últimos episódio e o processo de reabertura arquitetado pelo General Golbery do Souto e Silva foram essenciais para que tenhamos nos livrado das instabilidades institucionais que marcaram nossa história.

A Presidência da República foi devolvida aos civis, voltamos a ter eleições diretas, impedimos um mandato presidencial dentro das regras constitucionais, o então vice-presidente da República assumiu e completou o mandato mantendo a legalidade, tivemos alternância de rivais no Palácio do Planalto. Tudo que em outros momentos históricos geraria graves crises institucionais, nós conseguimos atravessar sem maiores turbulências nos últimos tempos.

Agora, os derrotados do último outubro teimam em não aceitar a derrota e resgatam o espírito golpista da velha UDN, que esteve contido por todo esse tempo. A campanha acirrada e o resultado apertado os encheram de energia não só suas lideranças políticas, mas também sua base social, insuflados pelo caráter panfletário da mídia.

O resultado do que vivemos é imprevisível, embora paralelos históricos mostrem que corremos o risco de cairmos numa ditadura de cunho fascista ou, no melhor do cenário, num clima de acirramento constante nos moldes venezuelanos. Em qualquer dos casos, o governo precisa reagir, encarar o embate, tratar os golpistas como golpistas e implementar o programa que foi vitorioso nas eleições do ano passado.


A história se repete, diz Karl Marx, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa. Que o Brasil consiga frear os farsantes da vez. 

2.2.15

Virar à esquerda e enfrentar o levante conservador

Uma ex-ministra, senadora e nova queridinha da mídia tradicional afirmou há alguns dias que "ou o PT muda ou se acaba". Esses dois verbos talvez sejam os mais presentes na história do partido. Nenhum mudou tanto, nenhum esteve tanto tempo sob a suposta ameaça de acabar.

O PT ia acabar quando não votou em Tancredo, ia acabar quando não votou no texto final da nova Constituição, ia acabar quando se opôs ao Plano Real e perdeu a eleição de 1994, ia acabar quando colocou um empresário como candidato a vice-presidente, quando aprovou a reforma da previdência, no mensalão, nos aloprados, nos cartões corporativos, na Petrobrás, no dengue, nas edições de medidas provisórias, na cor do vestido da Dilma na reunião ministerial. A cada capa de jornal viria a tão sonhada bala de prata que ia acabá-lo definitivamente. 

Enquanto isso, o partido venceu as eleições presidenciais pela quarta vez consecutiva, elegeu a maior bancada na Câmara Federal, lidera um projeto que dobrou o número de vagas nas universidades, tirou mais 30 milhões da miséria, levou energia elétrica para as zonas rurais, elevou a economia da 15ª para a 7ª posição no ranking internacional, enfim, colocou o país no rumo das mudanças sociais mesmo com todas as dificuldades que a correlação de forças impõe.

O PT é o único partido que elege todas as suas direções por meio do voto direto de cada filiado, com paridade de gênero e cotas para negros e jovens. Nenhum outro partido tem tanta inserção no movimento social e sindical. 

Ainda assim, o PT pode se dar ao luxo de parar de mudar. Charles Darwin nos ensinou que o mais evoluído não é o maior ou mais forte, mas o que melhor se readapta a novas circunstâncias. E a cada eleição e a cada nova crise, artificial ou não, a realidade que o partido tem que enfrentar é outra. 

Agora não se trata mais de finalmente chegar à Presidência da República, provar que pode governar, mostrar que o projeto pode ser continuado com outro presidente. Nessa etapa o PT terá que se realimentar de outras pautas e não mais dos sucessos desses 12 anos. 

As duas pautas que hoje embalam o partido são a reforma política e a regulação da mídia. Ambas vendidas como grandes soluções. Não são. Melhorar o sistema político é imperativo, mas não resolve os problemas da cultura política brasileira. Regular economicamente a mídia é prática nas democracias mais desenvolvidas, mas não fará com que a esquerda deixe de apanhar na imprensa enquanto não tiver seus próprios meios.

E por mais necessárias que sejam, nenhum das duas consegue dialogar com a sociedade nos setores que o partido tem perdido espaço. É necessária uma agenda que traga para o período não eleitoral a mesma disputa ideológica do último segundo turno.

Não apenas uma pauta ou duas, mas um conjunto de proposição que mostre que 12 anos de Palácio não transformaram o partido nisso que mídia mostra, que ele se readapta para a luta sem mudar de lado. Que a coalizão que sustenta o governo pode ser heterogênea, mas o PT é e continuará um partido de esquerda, sem centrismos.

Um universitário hoje com 20 anos, tinha 8 anos quando Lula subiu a rampa do Planalto. Esses que não viveram ou não se lembram do Brasil pré-Lula acham que ser anti-PT é ser contestador. Contestador é o PT e o partido tem que mostrar isso, ou não terá conseguido se readaptar a esse momento.

O partido deve evitar o imobilismo institucionalizado levantando a bandeira de reformas de base. O que era possível foi feito nesses três governos, mas para ir além é necessário enfrentar as mudanças estruturantes que urgem e não são poucas. A principal delas, na minha opinião: A reforma tributária. Taxar das grandes fortunas, rendas, patrimônios e heranças para desonerar o emprego e a produção, fazendo com que quem tenha mais pague mais, quem tem menos pague menos, e tornando a economia brasileira mais competitiva.

A mudança não é escolher esta ou aquele como candidato em São Paulo, é virar à esquerda, enfrentar o levante conservador que cresce no Brasil e mostrar isso para a sociedade, em especial à juventude.