9.7.11

Uns podem, outros não

Por José Inácio*


Sempre foi assim. Desde a Idade Média, na relação entre súditos e senhores feudais. Foi assim durante todo período Colônia na relação entre senhor de engenho e os escravos. E assim perdurou durante grande parte da República quando homens tinham direito a votar e serem votados, enquanto às mulheres era negado tal direito.

Aos detentores do poder econômico e político, aos letrados e de sobrenome importante sempre sobraram privilégios, mas àqueles de origem humilde, forjados nas lutas sociais e sindicais pouco ou quase nada sobrou. Não podem, nem sequer, tomarem decisões baseadas nas suas convicções ideológicas ou de acordo com o pragmatismo que às vezes a política requer. Mas a alguns é reservado o direito de ter o pragmatismo como a arte da sobrevivência política e ainda serem elogiados por isso.

Faço este preâmbulo para adentrar numa breve análise política do discurso de posse do ex-deputado. Flávio Dino na Embratur. Que sabendo da iminência de sua nomeação, utilizou-se de blogs e jornais oposicionistas para passar a idéia que estava em disputa contra um veto de Sarney a seu nome. Para oportunamente afirmarem: Flávio Dino derrota Sarney em disputa nacional! Camuflando o fato de tornar-se subordinado de um aliado do Sarney e continuar passando a imagem aos “sarneyfóbios” de que não mantém relação com o atual presidente do Senado.

Mas, na verdade, o que motivara o veto foi o fato, que todos sabem, de Dino ter se omitido na campanha presidencial do segundo turno, por melindre, por empolgação com a onda tucana da primeira semana e por seguir orientação do discurso reinaldista que bradava “que derrotar Dilma e Lula era derrotar Sarney”.

Petista José Inácio

Mas então que entra em cena a imprensa nacional, que imaginava o dileto deputado, não chegar aos incautos, aos pobres e analfabetos dos rincões maranhenses. Assim pode afirmar com desenvoltura, logo após sua posse, em entrevista concedida ao site da revista veja: “No plano nacional, nós integramos o mesmo campo político, que apóia o governo da presidente Dilma. Essa aliança nacional é determinante para que eu transmita a certeza de que nós teremos uma relação cordial, produtiva, eficiente e alinhada com os grandes objetivos estabelecidos pela presidente”. O articulista da Veja sintetiza a entrevista da seguinte forma: Dino falava em “herança maldita” na política estadual. Agora, já admite a relevância de Sarney frente ao Senado.

Vejamos que não há contradição com a afirmativa do articulador político do governo. Roseana, o cauteloso secretário. Hildo Rocha, em sua página do Facebook, logo após a nomeação do ex-deputado: “Por que esconder o sol com a peneira? É lógico que ele teve o aval político do presidente do Congresso Nacional, José Sarney, para ser nomeado pela presidenta Dilma”.

Será que está se estabelecendo, na contramão do que diria o poeta, o “Consenso de Washington & Cia”, ou realmente Uns Podem e Outros Não?

Ou seria tudo isso apenas rumor?

Deve-se a Shakespeare a melhor definição de rumor. Encontra-se asssentada na segunda parte de Henrique IV: “O rumor é flauta de conjecturas, ciúmes e suspeitas. Instrumento tão simples e tão fácil, que o monstro rude de cem mil cabeças, a ondeante multidão, sempre indecisa, pode tocá-lo”. O gesto de Flavio Dino faz soar a “flauta” em todo o Maranhão. Sopram especulações sobre seu futuro político. E em meio às dúvidas, a “flauta” começou a entoar no timbre das eleições de 2012 e 2014.

Dito tudo isso, retornemos a análise da conjuntura política que definiu a aliança PT-PMDB em 2010. Diante do reconhecimento público, ainda que tardio, da importância da aliança nacional pelo ex-deputado Flávio Dino, reafirmamos que a CNB-MA (corrente interna do PT) estava correta em sua tática eleitoral. Primeiro porque a prioridade era eleger a presidenta Dilma, segundo porque conseguimos indicar o candidato a Vice-Governador e ocupar espaços importantes na esfera de governo que nunca tínhamos tido (Secretarias do Trabalho, Desenvolvimento Social e Educação). A Vice-Governadoria é um fato, representa poder real, tem uma importância estratégica no jogo sucessório em 2014. Foi nisso que apostamos. Quanto aos espaços de governo, atualmente, nossos adversários internos é quem têm razão, estão esmilinguidos, sem expressão. Precisarão ser revistos, como bravamente vem reivindicando nossos militantes, sob pena de colocar em risco a manutenção da aliança PT-PMDB em 2014, ainda temos tempo para ajustes. Inobstante a existência das ditas “contradições”, olhando para o futuro, a aliança fora um ato político duplamente acertado. Antecipamos o que agora muitos estão em compasso de tomar coragem para fazer.

Outro ponto que merece lembrança, é que a eleição da Dilma era prioridade, também, para a direção nacional do PCdoB, assim como a recomendação era eleger Flávio Dino senador na chapa com o PCdoB-PT-PMDB. Quem dera pudéssemos retroagir a exatos um ano, ou seja, a junho de 2010, período das convenções. Quem sabe o ex-deputado, com essa nova postura, não teria coragem para acatar a orientação nacional do seu partido, assim como os “questionáveis” petistas locais o fizeram. Digo isso não por mera especulação, mas por informação de uma fonte fidedigna do Território dos Cocais que, no início de março de 2010, em conversa com um coronel da região, o deputado disse não aceitar concorrer ao Senado não por fidelidade a Zé Reinaldo, mas sim por temor de ser abandonado no meio do caminho, não se eleger, ficar desmoralizado e acabar com sua carreira política.

Abro um parêntese só pra relembrar um pouco mais a história…

Já o deputado Bira do Pindaré (PT), talvez com a empolgação da votação (mais de meio milhão de votos) nas eleições de 2006, ou por conta da dúvida em relação às eleições proporcionais, foi mais corajoso e nos minutos finais da prorrogação (digo das convenções) se ofereceu para ser senador na aliança PT-PMDB. Infelizmente as coisas já haviam sido definidas, ficando o gesto nobre do jovem e competente deputado petista.

A incerteza da eleição para o Senado, diferentemente da certeza da nomeação para a Embratur, fez com que Flávio Dino tivesse uma postura diferente da que tem hoje. Somado ao ambiente das incertezas que era uma aliança com o PMDB, é coerente e oportuno ressaltar que havia o outro lado da moeda que também tinha um forte apelo político, qual seja, quem herdaria o espólio das oposições pós-eleições 2010, se um representante da esquerda popular e democrática, no caso ele próprio, ou um representante da oposição conservadora e adversário político nacional, no caso o tucano Roberto Rocha. Este argumento foi um dos “trunfos” utilizados na cooptação de delegados na convenção do PT que definiria a aliança. Veja que esse debate já existia com Jackson Lago ainda em vida. Assim vai seguindo grande parte das oposições no Maranhão, trilhando o caminho do medo, da dúvida e da incerteza. Será quem dará o próximo passo?

Nesse momento vale aqui relembrar a máxima: em política ninguém é o que parece. Sobretudo quando parece o que é.

*José Inácio é advogado e membro da Executiva Estadual do PT-MA.

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