31.7.09

Qual o problema com a TV Brasil?

A Folha de S. Paulo de hoje foi às bancas com um editorial entitulado: "TV que não pega".

O texto termina com a seguinte sentença: "Os vícios de origem e o retumbante fracasso de audiência recomendam que a TV seja fechada -antes que se desperdice mais dinheiro do contribuinte."

Ora, por que um veículo de comunicação defende o fim de outro veículo de comunicação? O que poderia a TV Brasil representar que causasse tanto asco à FSP?

A TV Brasil é uma ínfima, apesar de ser também a maior, tentativa do governo Lula de criar uma alternativa à mídia nativa. Por isso FSP e companhia sempre foram contra sua existência.

Este governo, como se sabe, nunca enfrentou as quatro famílias. Marinho's, Civita's, Mesquita's e Frias virão Lula descer a rampa do Planalto da mesma forma que virando-no subi-lá, com a concentração de mídia em suas mãos.

O que perderam de espaço nestes últimos anos foi reflexo do avanço da internet, mas nada o governo Lula fez para democratizar os veículos de comunicação. A não ser a criação da TV Brasil.

Chamou Franklin Martins para ministro, Tereza Cruvinel para presidir a empresa e Helena Chagas para dirigir o jornalismo. Galáticos do jornalismo brasileiro. Assim, mais oportuno do que uma campanha contra a TV Brasil é uma reflexão: Por que a TV Brasil ainda não pegou? O que fazer para que ela pegue?

23.7.09

Tô aqui

Ainda estou vivo, pessoal. Gripado, com suspeita de gripe A, mas vivo.

Me afastei deste espaço por vários motivos. Congresso da UNE, seminário da JCNB, e agora esta gripe.

Não se preocupem comigo. A letalidade desta doença não passa de 0,5%. Tem mais gente morrendo de disenteria.


Fora Sarney?

Este pessoal do "O Estado de S. Paulo" e companhia ainda me farão defender José Sarney (PMDB-AP).

Hoje, o dia inteiro, só fizeram requentar a notícia de ontem. Segundo manchete do OESP "Gravações ligam Sarney a Agaciel e a atos secretos".

Inacreditável. Conseguiram demonstrar ligação política entre Agaciel Maia e José Sarney. Este que nomeou aquele diretor-geral do Senado quando o ocupou a presidência da Casa pela primeira vez.

E o que mais? Ah sim. As gravações ligam Sarney aos atos secretos. Uma ova. Em momento nenhum Sarney, ou mesmo seu filho, Fernando, pediram para que a contratação fosse feita de forma secreta.

Não me comprem por sarneysista, não sou. Pelo contrário, sou maranhense e sei bem o mal que este é para o Maranhão e para a política brasileira. Porém, é flagrante o "um peso, duas medidas".

Por que tudo isso agora? Por que Sarney não foi vítima de denúncia quando apoiava Efeagacê? Seria Sarney santo naquele outrem?

Ora, temos que ter cuidado para não enxergarmos apenas aquilo que nossos olhos vêem. O que está por trás desta enxurrada de denúncias? A quem interessa tudo isso?


Indignação seletiva

Quanto aos senadores Cristovam Buarque (PDT-DF)e Pedro Simon (PMDB-RS). Bem... Terão mais moral pra reclamar de Sarney no dia que o PDT-DF deixar de apoiar o governo Zé Arruda e o PMDB-RS o governo Yeda.

6.7.09

De estratégia e sacanagem ele entende


Há um triunvirato que dá calafrios do senhor Daniel Dantas. O delegado Protógenes Queiroz, o juiz Fausto De Sanctis, e o procurador Rodrigo De Grandis.

Pois na última sexta-feira, De Grandis entregou a De Sanctis uma denúncia contra Daniel Dantas e sua curriola como desdobramento à operação Satiagraha, comandada por Protógenes.

Sobre Dantas pesam denúncias por formação de quadrilha e organização criminosa, gestão fraudulenta de instituição financeira, evasão de divisas e lavagem de dinheiro. Entre os demais denunciados estão Verônica Dantas, irmã de Daniel, e o testa de fer... digo, o presidente do Opportunity, Dório Ferman, também conhecido por ajudar as campanhas eleitorais de Marcelo Itagiba (PMDB-RJ) e Raul Jungmann (PPS-PE). Humberto Bráz, Carla Cico e Roberto Amaral (não o ex-ministro, o ex-dirigente da construtora Andrade Gutierrez) também não foram esquecidos por De Grandis.

E não pensem que o calvário de Dantas está próximo do fim. As investigações da Satiagraha continuarão e De Grandis ainda pediu a abertura de três novos inquéritos.

Um para aprofundar as investigações sobre os figuras suspeitas, porém ainda não denunciadas, como o ex-cunhado de Dantas (e amigo de Heráclito Fortes) Carlos Rodenburg e o advogado e ex-deputado Luis Eduardo Greenhalgh.

O segundo para investigar a compra da Brasil Telecom pela Oi, na qual estima-se que Dantas teria levado R$ 1 bi.

E um terceiro para investigar a participação de brasileiros que tinha, ilegalmente, cotas do Opportunity Fund, sediado nas Ilhas Cayman.



A participação no suposto mensalão

Diz a denúncia de De Grandis que Carlos Rodenburg, ex-cunhado de Dantas, teria procurado o publicitário (?) Marcos Valério queixando-se do relacionamento ruim entre o governo Lula e o grupo Opportunity. Valério, então, teria feito uma "ponte" entre Rodenburg e Delúbio Soares, à época tesoureiro do PT.

Os dois se encontraram e o emissário do Opportunity teria pedido a Delúbio que tentasse aparar as arestas (leia-se Luiz Gushiken) entre o governo com o grupo. Delúbio teria confirmado que a impressão do governo em relação ao grupo de Dantas era realmente ruim. A denúncia não aprofunda nada além disso.

A denúncia também afirma que a Brasil Telecom, na época controlada pelo Opportunity, tinha contratos com a SMP&B, empresa de Marcos Valério. O contrato teria sido firmado por indicação de Carla Cico, aconselhada por Humberto Bráz.



E a imprensa?

Claro, não poderia faltar a participação de alguém da imprensa.

Em trecho destacado da denúncia aparece a seguinte transcrição de uma fala de Daniel Dantas durante um telefonema:

- Daí sairia uma matéria paga de 7 itens, agora na 1ª PAG. Dos jornais, por o estrago aumentou; (...) acho que de estratégia e sacanagem entendo um pouco, pelo amor de Deus: Aja já.

Mais adiante, com base nas documentações apreendidas, De Grandis afirma que Roberto Amaral era pago por DD e pagava jornalistas. Dois são citados, Giba Um e CLÁUDIO HUMBERTO.

1.7.09

É errando que se aprende...

... a errar de novo.

O PT fez um senhor papelão há alguns anos quando se prestou ao serviço de defender o senador Renan Calheiros (PMDB-AL) das acusações que ele sofria quanto ocupava a presidência do Senado. Algumas figuras ficaram especialmente desgastas com o episódio, como a senador Ideli Salvatti (SC).

Renan, porém, achou que a defesa do PT foi meia-boca e se revoltou contra o então primeiro-presidente do Senado, Tião Viana (AC). Por isso moveu mundos e fundos para eleger o senador José Sarney (PMDB-AP) para a presidência da Casa no último fevereiro, evitando a eleição de Tião.

Para eleger Sarney Renan prometeu contemplar o PTB com um cargo de destaque para o senador Fernando Collor (PTB-AL). Assim, a presidência da comissão de Infra-Estrutura, que pela proporcionalidade deveria ficar com o PT (coincidentemente com Ideli), acabou com nas mãos do senador collorido.

Agora, o mesmo Sarney, eleito pelo esforço do mesmo Renan Calheiros, está em apuros. O PSDB, o PFL e o PDT já pediram que ele saia da presidência do Senado. Pelo menos três senadores do próprio PMDB também apoiam o afastamento. Quem é a última esperança? O PT, que, mulher de malandro, pende agora a apoiar Sarney em nome da "governabilidade".

Correio Braziliense e Governo Zé Arruda, relações suspeitas

Tirado do Observatório da Imprensa

Por Venício A. de Lima em 30/6/2009


Num domingo, 8 de março de 2009, o Correio Braziliense, principal jornal do Distrito Federal, dedicou duas páginas (uma delas a capa) do seu caderno "Cidades" a ampla matéria na qual encampava publicamente a posição de porta-voz do Governo do Distrito Federal (GDF) contrária à anunciada greve dos professores da rede pública de ensino. Os professores reivindicavam o cumprimento de um acordo salarial (ver aqui e aqui).

O título principal da matéria era "Greve sem causa" e uma coluna encimada pela retranca "Visão do Correio", intitulada "Crime de lesa-futuro" fazia, dentre outras, as seguintes afirmações: que a ameaça de greve era descabida; que o reajuste salarial ultrapassava os limites do bom senso; que não se apelava ao idealismo dos professores, mas ao profissionalismo e concluía:

"Há muito o GDF deixou para trás a idéia ultrapassada de que o magistério é sinônimo de sacrifício. Não é. Trata-se de atividade essencial para formar cidadãos, preparar mão de obra qualificada e dotar o país de elite indispensável para a construção do futuro. A responsabilidade da função impõe direitos e deveres. São os deveres — exigidos de qualquer trabalhador — que os professores querem ignorar. É crime de lesa-futuro."

O leitor atento certamente terá notado, à época, que contrariamente às regras elementares e básicas do jornalismo, a longa matéria opinativa do Correio Braziliense, além de defender um dos lados, isto é, não ser isenta, omitia inteiramente o "outro lado" envolvido na disputa: os professores não foram ouvidos, simplesmente não aparecem na matéria para explicar ou defender sua posição.

Notícias (?) em sala de aula

Menos de quatro meses depois, no dia 22 de junho, o mesmo Correio Braziliense anuncia também em seu caderno "Cidades", página 23, sob a retranca "Educação" e o título "Notícias em sala de aula" (a matéria foi reproduzida no sítio do próprio GDF sob o título "SEDF e Correio lançam projeto para incentivar leitura e escrita na rede pública", ver aqui), que 7.562 exemplares do jornal serão distribuídos todos os dias, "até o fim de 2009", a professores e alunos de 199 escolas urbanas e rurais da rede pública de ensino do DF.

Em sugestiva resposta a pergunta feita pelo jornal, o secretario de Educação do GDF informa:

Se o senhor fosse professor, o que faria com o jornal em sala de aula?

Eu olharia o caderno de `Cidades´ e tentaria identificar nas notícias o que tem a ver com a cidade do aluno e o que dali é possível demandar. Seguramente, esse é o primeiro ponto, por causa da proximidade. Estou tratando de uma coisa que está muito próxima de mim. E depois de pegar o cotidiano de todo o DF, podemos analisar o do Brasil e do mundo."

A matéria – seria possível chamá-la de "notícia"? – no entanto, omite informações fundamentais. Por exemplo: não se sabe se teria sido realizada uma licitação; qual o valor do acordo (contrato?); e se os professores e/ou os alunos da rede pública foram ouvidos. E mais: se houve alguma discussão sobre a conveniência pedagógica de acordo (ou contrato?) desse tipo.

Os professores da rede pública do GDF, por outro lado, por meio de seu sindicato, reagiram à assinatura do convênio e perguntam no seu site (ver aqui):

"Como podemos confiar na opinião do mesmo jornal que, no dia 8 de março deste ano, na abertura do mesmo caderno `Cidades´, publicou como visão do Correio um minieditorial com o indignante título de `crime de lesa-futuro´. Crime esse que nós, professores, cometeríamos se tomássemos a atitude `descabida´ (sic) de entrar em greve para fazer valer nossos direitos?"

Interdependência histórica

As relações históricas de interdependência entre o Estado e a mídia no Brasil são por demais conhecidas. Elas se materializam através de subsídios, empréstimos bancários, financiamentos oficiais, isenções fiscais, publicidade legal obrigatória ou publicidade oficial. Uma manifestação mais recente dessa interdependência é exatamente a compra volumosa – e sem licitação – de material considerado didático.

Compras desse tipo, agora em ano pré-eleitoral, já foram detectadas nos estados de São Paulo e Goiás e na prefeitura do município de São Paulo (ver "Globo e Abril agradecem", na Revista do Brasil nº 34, de abril de 2009; e, neste Observatório, "A privatização subjetiva da educação pública"). Há, inclusive, uma representação feita junto ao Ministério Público questionando os contratos firmados entre o estado de São Paulo e o Grupo Abril (ver aqui).

O acordo (contrato?) agora anunciado entre o GDF e o Correio Braziliense significa que cerca de 16% da tiragem média do jornal em dias úteis estão vendidas "até o fim de 2009" (cf. números do Instituto Verificador de Circulação de março de 2009). Não se conhece o valor total envolvido no acordo (contrato?). O site do Sinpro-DF informa que...

"Ainda não conseguimos ter acesso ao valor total do convênio (...) mas somente do Fundeb serão gastos mais de R$ 2,9 milhões para pagar ao CB, conforme pode se ver pela nota de empenho do Governo do Distrito Federal (clique aqui para ver). Também descobrimos que há outra nota de empenho do Fundeb em favor da revista Veja, no valor de R$ 442.462,50 (clique aqui para ver)."

Os recursos do Fundeb, como se sabe, são destinados ao financiamento da educação básica (creche, pré-escola, ensino fundamental, ensino médio e educação de jovens e adultos) e sua aplicação é fiscalizada por um Conselho de Acompanhamento e Controle Social que tem como função principal acompanhar e controlar sua distribuição, transferência e aplicação no âmbito das esferas municipal, estadual e federal (ver aqui).

Notícias, dinheiro público e transparência

Em tempos de crise da mídia impressa (salvo dos jornais populares e gratuitos), colocando em risco a própria sobrevivência no mercado de alguns jornalões, mais ainda do que em época de normalidade, não seria ético e salutar que jornais como o Correio Braziliense – além de zelar pela credibilidade fazendo jornalismo de notícias e não de matérias opinativas – praticassem, para si mesmos, aquilo que corretamente têm exigido de outras esferas de poder (exceto, aparentemente, do GDF)?

Ou o critério da transparência na destinação do dinheiro público não se aplica quando beneficia a própria grande mídia?



Foto: Agência Brasil