31.10.08

Encerrando as municipais

Desculpem pela ausência durante esta semana. Problemas técnicos.

Algumas considerações sobre as eleições municipais:


Uma coisa é uma coisa

As eleições municipais têm praticamente nenhum impacto nas eleições presidenciais de 2010.

Se tivesse, o grande derrotado seria Ciro Gomes (PSB-CE), que comprou a briga em Fortaleza embarcando pra valer na campanha da senador Patrícia Saboya (PDT-CE) e viu Luizianne Lins (PT) ser reeleita em 1º turno. Pra piorar, o PSB aumentou seu número de prefeituras consideravelmente e Ciro pouco participou disso. Se tivesse rodado o país se promovendo como pré-candidato o sucesso do PSB seria creditado a ele.


Serra X Aécio

Esta história de o governo José Serra sair fortalecido e a frente de Aécio Neves na disputa para ser o candidato do PSDB em 2010 é balela. Márcio Lacerda (PSB) venceu pelos mesmo 60% a 40% e não estava no cargo de prefeito, diferentemente de Gilberto Kassab (DEM). Além do mais, Serra venceu na capital com Kassab, mas perdeu em Bauru, em Garulhos, em Mauá, em Santo André (no primeiro turno), em Diadema e São Bernardo do Campo. Já Aécio, além de vencer na capital virou o jogo inesperadamente em Juiz de Fora.


Qual PMDB?

Outro dito vencedor é o PMDB. Qual PMDB? Ele é um partido que vai de Pedro Simon, Roberto Requião e Sérgio Cabral a Joaquim Roriz, Jader Barbalho e Orestes Quércia. O crescimento do PMDB só pode ser avaliado em cada estado particularmente. Na Bahia, por exemplo, ele foi bem, mas no Maranhão foi mal. E fiquémos neste dois exemplos.


Esquerda

A esquerda, esta sim, se saiu melhor nestas eleições. O PT continua, como sempre, aumentando o seu número de prefeitos de forma expressiva e desta vez conseguiu crescer nos rincões. O PCdoB quadriplicou seu número de prefeitos, venceu numa capital pela primeira vez (Aracaju), venceu em cidades importantes como Olinda (PE) e fez bonito em outras como Belo Horizonte, Porto Alegre e principalmente em São Luiz. O PSB cresceu sonoros 80%. Por outro lado, o PFL, o PSDB e o PPS caíram bastante.

Ninguém venceu batendo no governo Lula. Alguns, pelo contrário, aderiram como Geraldo "Lula tudo bem, o problema é o PT" Alckmin e João "Sou Lula, voto Castelo" Castelo.


Kassab, teu nome é esperança

A vitória de Kassab é uma importante conquista para o PFL não deixar de ser um partido grande, mas tem que se reformular. O eixo Santa Catarina-Bahia-Pernambuco foi para o espaço. O auto entitulado Democratas deve investir em São Paulo, onde tem a prefeitura da capital e um ótimo nome para presidir o partido, Guilherme Afif Domingos. O novo eixo deve ser São Paulo-Distrito Federal-Rio Grande do Norte.


Marketing

Mais do que o apoio, a simpatia ou a amizade o presidente Lula, o fator mais decisivo nestas eleições para alcançar a vitória foi um bom marketing e bastante tempo de TV.

27.10.08

Perdi 12 cervejas...

... e ganhei uma esquerda.

Aqui em São Luiz foi eleito o ex-governador biônico João Castelo (PSDB). Com muito dinheiro, com muito marketing, com o apoio subalterno do governo do Estado, com a simpatia de parte do PT e com métodos inescrupulosos João Castelo foi eleito.

Em São Paulo a imprensa fez um escândalo daquela tal peça publicitária da candidata Marta Suplicy (PT) que perguntava, entre várias outras coisas, se Gilberto Kassab (ex-PFL) era casado. Aqui foram feitos pafletos, alguns não assinados, e boatos falando que o deputado Flávio Dino (PCdoB), candidato derrotado no segundo turno, seria ateu, homossexual, assassino de cristãos, violento com a própria mulher, que ele colocaria "magia negra" do currículo escolar das crianças, entre outros absurdos. Cadê o Ricardo Noblat e Clóvis Rossi com suas revoltas?

Cadê os institutos de pesquisas que davam Castelo com cerca de 65% das intenções de voto? Até quando as pesquisas continuarão a "errar"? O resultado final mostrou Castelo com 55% dos votos.


2010

Depois desta eleição, a tendência natural é o PCdoB e o PT deixarem a chamada "Frente de Libertação", base de apoio do governo estadual Jackson Lago, e demarcarem um campo próprio da esquerda, não só na capital, mas em todo o estado. Segundo o ex-deputado Washington Luiz (PT-MA) a esquerda não pode ser braço auxiliar de nenhum grupo de direita e chamou os adversários na disputa municipal de facistas pelos boatos e panfletos feitos durante a campanha.


PT X PT

O presidente do diretório regional do PT, deputado Domingos Dutra, não participou da campanha de Flávio Dino em nenhum dos dois turnos e teve aliados seus que pediram voto para Castelo. Não é a toa que ele é chamado de "petista emplumado". E a direção nacional do partido não toma providência.

26.10.08

Greve e São Luiz

Não sei porque os movimentos sociais nunca têm a devida cobertura dos veículos de comunicação... quer dizer, eu sei, mas neste caso é ainda mais grave.

A greve dos bancários, que terminou esta semana, é para ficar na memória das mobilizações sociais brasileira. Foi uma greve longa, difícil, justa e que conseguiu, como nunca antes, a adesão dos bancários de bancos provados.

A proposta apresentada pelos banqueiros e aceita pelos trabalhadores foi de 10% de aumento nos salários dos trabalhadores que ganham até R$ 2.500,00 e 8,5% para os que ganham mais de R$ 2.500,00, além de aumento na participação dos lucros. Uma grande conquista para os bancários.



São Luiz

Só hoje falo sobre esta greve porque estou em viagem. Vim acompanhar o final do segundo turno em São Luiz. A disputa entre o tucano João Castelo, governador biônico na época da ditadura militar, e o petista filiado ao PCdoB Flávio Dino será uma das mais acirradas neste segundo turno.

Esqueçam as pesquisas eleitorais. Estas eleições (mais uma vez) desmoralizaram a maioria dos institutos que vivem de fazer pesquisas e mesmo assim erram. Ninguém acertou o resultado do 1º turno aqui em São Luiz, por que acertariam no segundo?

Apostei 12 cervejas que Dino será, contra o governo do estado, os empresários e todas as pesquisas. Mais alguém quer apostar?

22.10.08

Eloá, o que as mídias e os especialistas não discutem

Há menos de 24h do trágico desfecho do seqüestro de Eloá Cristina Pimentel, por Lindemberg Alves, todos atônitos procuramos “compreender” via mediação dos meios de comunicação social e de especialistas da segurança pública, psicólogos, e outros, um fato presente cotidianamente no noticiário: a violência contra as mulheres.

Muitas são as explicações que tentam dar conta do comportamento do jovem, cujo perfil durante o processo de negociação fora retratado pelos meios como de um rapaz tranqüilo, trabalhador, que tinha planos para casar. “Dificuldade de lidar com as frustrações”; “comportamento passional”, “de tolerância muito baixa às frustrações”, entre outros argumentos são discutidos publicamente em jornais, sites, rádio, enfim, em todo processo de agendamento desta lamentável crônica de mais uma tragédia midiatizada.

Inúmeros aspectos deste acontecimento são ressaltados na cobertura: o lugar, os protagonistas, o tempo, amigos, imagens, os momentos de negociação, os lugares de origem de Eloá e Lindemberg, as imagens... Todavia há um aspecto a ser considerado nesta notícia, como em tantas outras que possui semelhança com o seqüestro de Eloá e Nayara, o fato de que se trata de crimes que se relacionam com as desigualdades de gênero e que se não discutirmos também nos noticiários esta face da violência, se torna muito difícil a superação de algo que pode ser considerado, lamentavelmente, um padrão cultural de se matar mulheres.

Um breve monitoramento de mídia permite perceber a brutalidade e reificação de crimes como estes: eles não são apenas crimes passionais, eles podem situados numa teia complexa de construção de valores sociais que forjam um feminino fraco, vulnerável, incapaz e sem condições de decidir a própria vida, em contraposição a um modelo de masculinidade rígido e legitimado socialmente a partir da força, da dominação e do controle. São de certa maneira estes alguns dos elementos que mantém os mecanismos psíquicos do poder na constituição do sujeito e a na construção da sujeição.

Perceber os gêneros como processo de mediação do social é urgente para que a gente se dê conta da violência contra a mulher como um fenômeno social cujo aparecimento cotidiano nas mídias também precisa ser interpretado, refletido com e a partir dos veículos de comunicação.

A motivação de Lindemberg em manter seqüestrada Eloá e tentar por fim a vida da jovem se inter-relaciona com outros fatos conhecidos da sociedade brasileira, como os casos Ângela Diniz, Sandra Gominde, Daniela Perez, e ainda de inúmeros casos de violência e homicídios femininos que são noticiados, mas que carecem não de uma tentativa de tentar compreender o comportamento masculino, mas de questionar os valores sociais que se reproduzem nas trocas simbólicas e tecem ainda, tristemente, este predomínio do falo que oprime e extermina.

O tiro na virilha de Eloá não é só uma metáfora, mas uma expressão do ódio da tentativa frustrada de continuar mantendo o exercício do controle sobre o corpo das mulheres, por isto me sinto hoje também transpassada por esta bala.

Numa das notícias veiculadas hoje dois personagens sobrenaturais surgiram: um anjinho e um diabinho que acompanhavam Lindemberg. Parece inacreditável, mas este recurso, muito comum entre homens que praticam violência contra as mulheres, aparece mais uma vez como uma máscara, uma performance que busca esconder o lado perverso de um imaginário social que em momentos como este é despertado pelos disparos protagonizados por um homem que representa neste instante os mecanismos simbólicos que negam cotidianamente às mulheres o seu direito a vida.



Sandra Raquew dos Santos Azevedo,
Jornalista
http://etnografiasdoinvisivel.blogspot.com/

21.10.08

Erros e acertos

A Polícia errou no chamado sequestro do ABC. E quem tem a responsabilidade nas suas costas erra mesmo, porém não dá pra culpar exclusivamente a polícia, muito menos querer, por este meio, responsabilizar o governador José Serra.

Até agora o erro mais grave de que se tem notícia por parte da polícia foi não impedir que Nayara voltasse ao cativeiro. Por sorte, sorte mesmo, ela não morreu, mas critérios básicos foram desrespeitados.

Por outro lado, não posso deixar de concordar com a decisão de não atirar em Lindemberg. Os atiradores tiveram a oportunidade de fazê-lo, mas não o fizeram pois não tratava-se ali de um criminoso com longa ficha corrida, procurado e reconhecidamente perigoso a sociedade. Lindemberg era um rapaz desequilibrado emocionalmente e com uma arma na mão. O esforço da polícia tinha que ser o mesmo daquelas 100 horas anteriores, preservar aquelas três vidas. Uma delas foi perdida por culpa do próprio Lindemberg, que naquele momento agiu como marginal. Se o Estado tivesse atirado em Lindemberg, além da possibilidade de acertar uma das meninas também, estaria ele, o Estado, agindo como marginal, algo que o Estado não é, não pode ser e não pode agir como se fosse.



Liberdade de ter uma arma

Eu, leitores, não tenho em casa armas nem munição. Acredito que civis, sem necessidade comprovada, como aqueles que moram em área rurais ermas, não devem possuir armas, mas Lindemberg possuia. E você, leitor eleitor que votou em referendo pelo direito de comercialização das armas de fogo? A culpa não é sua? Aquela arma não foi fabricada por Lindemberg no fundo de um quintal. Ela deve ter sido produzida por uma daquelas fábricas que patrocinaram a campanha do "não" no referendo. E você, se votou no não, votou pela possibilidade de tragédias como esta acontecerem.


Uso político

Quem costuma ler este modesto blog sabe que passo boa parte do meu tempo criticando o governador de São Paulo, José Serra, mas tentar utilizar esta tragédia para atingi-lo politicamente é algo vil e merece desprezo.

17.10.08

Explica, Serra


O homem do compromisso, José Serra, é um gênio. A lógica que ele aplica nas suas declarações é fantástica.

Mário Covas, do PSDB, foi eleito governador em 1994. Covas foi reeleito em 1998. Com seu falecimento em 2001, o vice, Geraldo Alckmin, do PSDB, assume o governo. Em 2002, Alckmin foi reeleito. Em 2006, Serra foi escanteado e mesmo querendo ser candidato a presidente foi eleito governador de São Paulo.

São quatro mandatos consecutivos do PSDB no governo do estado de São Paulo. Serão, no mínimo, 16 anos seguidos de PSDB comandando São Paulo.

Agora, em 2008, 14 anos depois do início do reinado tucano em São Paulo, a Polícia Civil do estado tem o pior salário do Brasil. "E a culpa é do PT"!

Incrível!

E o Estadão, porta-voz do empresariado, da direita e (consequentemente) do PSDB estampa na primeira página a opinião de Serra. Por que não colocou a opinião do sindicato? Por que não colocou que a Polícia Civil de SP ganha o Pior Salário do Brasil?



Foto: Agência Brasil

15.10.08

Texto do Luís Favre

COMERCIAL 30”
QUEM É O KASSAB?

“- Você sabe mesmo quem é o Kassab?
Sabe de onde ele veio?
Qual a história do seu partido?
De quem foi secretário e braço direito?
De quem esteve sempre ao lado, desde que começou na política?
Se já teve problemas com a justiça?
Se melhorou de vida depois da política?
É casado? Tem filhos?
Já que ele não informa nada, não é mais prudente se informar melhor sobre ele?

Pra decidir certo,
é preciso conhecer bem.”

Este comercial provocou a maior campanha da mídia brasileira em favor do respeito a vida privada dos políticos e a maior campanha em favor da tolerância e contra o preconceito.

Nunca antes na história do Brasil a mídia reagiu com tanta ênfase para evitar que um figura pública, no caso Kassab, tivesse sua vida pessoal e sua opção sexual, respeitada.

A mídia fez bem. Mas, porque ela só faz bem quando se trata de políticos que ela defende?

Vocês imaginaram se essa mesma reação tivesse se manifestado quando os ataques violentos e diretos a vida privada, a família, aos filhos e aos irmãos, assim como contra ele mesmo, foram lançados nessa mesma mídia, contra Lula? Como o ar da política estaria mais puro.

Vocês imaginam qual seria a “rejeição” da Marta se a mídia, com o mesmo vigor e a mesma energia, tivesse defendido o respeito a nossa vida privada?

Mas, no nosso caso, foi a mídia que durante 8 anos invadiu permanentemente nossa vida privada e nossas opções pessoais.

Será que a mídia está arrependida e procura corrigir a injustiça feita com a Marta, evitando uma injustiça com Kassab?

Não. Toda a experiência do comportamento da mídia nos últimos anos mostra que as únicas vidas privadas que ela sempre “respeitou”, que sempre protegeu e que nunca explorou são a vida pessoal e privada dos representantes da direita.

A vida pessoal de Lula foi massacrada pela mídia, a de FHC não. A da Marta foi jogada as feras do preconceito, do machismo e da xenofobia, a dos “coronéis” do nordeste não. Ilustres personagens da tucanagem tem suas vidas pessoais resguardadas, enquanto outros tem as suas permanentemente expostas para explorar o ódio.

Na minha opinião o motivo pela qual a mídia decidiu falar da opção sexual, em relação ao comercial, foi para evitar que a trajetória de Kassab no que ela importa ao povo de São Paulo, fique oculta até o segundo turno da eleição.

Eles querem evitar que o povo de São Paulo se pergunte: quem é Kassab? o que ele fez por São Paulo? quais são suas idéias, seu partido, sua história?

O barulho feito sobre a vida pessoal visa a evitar que este questionamento prossiga. Por isso eles ficam repetindo uma única pergunta: no que, que ele seja casado ou tenha filhos muda o político? Para responder: “Olha a baixaria”.

E todas as outras perguntas? interferem? o povo de São Paulo deveria prestar atenção? Ou só deveria se ater ao que a propaganda diz que o homem fez? Quem ele é, não conta?

O fato da Marta ser uma pessoa transparente, não importa? É uma qualidade, quando comparada a dissimulação, ou é um defeito?

Ou essa transparência só serve para poder, sem escrúpulos, invadir em permanência sua vida privada, atacar sua imagem e a da sua família?

Eu teria preferido o comercial assim, para evitar a manipulação que a mídia tem feito.
“- Você sabe mesmo quem é o Kassab?
Sabe de onde ele veio?
Qual a história do seu partido?
De quem foi secretário e braço direito?
De quem esteve sempre ao lado, desde que começou na política?
Se já teve problemas com a justiça?
Se melhorou de vida depois da política?

Já que ele não informa nada, não é mais prudente se informar melhor sobre ele?”

Eu sempre me insurgi contra a campanha que os jornais Folha e Estadão fizeram e fazem da vida familiar, pessoal e privada de Marta. Por isso também sou contra da mídia aproveitar a pergunta sobre se Kassab é casado, tem filhos, para propagar insinuações sobre a vida privada de Kassab. Como sempre, para a mídia, o “gancho” que ela utiliza como escudo para expor a vida privada, é o erro ou a ma fé de outros. Mas a campanha é ela que faz, com a hipocrisia que a caracteriza e sua identificação política notória.

Luis Favre



Leia a seguir os argumentos que o jornal O Globo, em editorial, apresentou para tratar destas questões de vida pública e vida privada, em 1989, reproduzido pelo Blog de Azenha

O DIREITO DE SABER

O povo brasileiro não está acostumado a ver desnudar-se a seus olhos a vida particular dos homens públicos.

O povo brasileiro também não está acostumado à prática da Democracia.

A prática da Democracia recomenda que o povo saiba tudo o que for possível saber sobre seus homens públicos, para poder julgar melhor na hora de elegê-los.

Nos Estados Unidos, por exemplo, com freqüência homens públicos vêem truncada a carreira pela revelação de fatos desabonadores do seu comportamento privado. Não raro, a simples divulgação de tais fatos os dissuade de continuarem a pleitear a preferência do eleitor. Um nebuloso acidente de carro em que morreu uma secretária que o acompanhava barrou, provavelmente para sempre, a brilhante caminhada do senador Ted Kennedy para a Casa Branca - para lembrar apenas o mais escandaloso desses tropeços. Coisa parecida aconteceu com o senador Gary Hart; por divulgar-se uma relação que comprometia o seu casamento, ele nem sequer pôde apresentar-se à Convenção do Partido Democrata, na última eleição americana.

Na presente campanha, ninguém negará que, em todo o seu desenrolar, houve uma obsessiva preocupação dos responsáveis pelo programa do horário eleitoral gratuito da Frente Brasil Popular de esquadrinhar o passado do candidato Fernando Collor de Mello. Não apenas a sua atividade anterior em cargos públicos, mas sua infância e adolescência, suas relações de família, seus casamentos, suas amizades. Presume-se que tenham divulgado tudo de que dispunham a respeito.

O adversário vinha agindo de modo diferente. A estratégia dos propagandistas de Collor não incluía a intromissão no passado de Luís Inácio Lula da Silva nem como líder sindical nem muito menos remontou aos seus tempos de operário-torneiro, tão insistentemente lembrados pelo candidato do PT.

Até que anteontem à noite surgiu nas telas, no horário do PRN, a figura da ex-mulher de Lula, Miriam Cordeiro, acusando o candidato de ter tentado induzi-la a abortar uma criança filha de ambos, para isso oferecendo-lhe dinheiro, e também de alimentar preconceitos contra a raça negra.

A primeira reação do público terá sido de choque, a segunda é a discussão do direito de trazer-se a público o que, quase por toda parte, se classificava imediatamente de ‘baixaria’.

É chocante mesmo, lamentável que o confronto desça a esse nível, mas nem por isso deve-se deixar de perguntar se é verdadeiro. E se for verdadeiro, cabe indagar se o eleitor deve ou não receber um testemunho que concorre para aprofundar o seu conhecimento sobre aquela personalidade que lhe pede o voto para eleger-se Presidente da República, o mais alto posto da Nação.

É de esperar que o debate desta noite não se macule por excessos no confronto democrático, e que se concentre na discussão dos problemas nacionais.

Mas a acusação está no ar. Houve distorção? Ou aconteceu tal como narra a personagem apresentada no vídeo? Não cabe submeter o caso a inquérito. A sensibilidade do eleitor poderá ajudá-lo a discernir onde está a verdade - e se ela deve influenciar-lhe o voto, domingo próximo, quando estiver consultando apenas a sua consciência.

EDITORIAL PUBLICADO EM O GLOBO NO DIA 14 DE DEZEMBRO DE 1989, QUINTA-FEIRA, DATA EM QUE LULA E COLLOR TRAVARAM O DEBATE FINAL ANTES DO SEGUNDO TURNO, EM 17/12/89

13.10.08

Alguém sempre ganha

A alguém interessa esta crise. Estas quedas e subidas brucas das bolsas faz com que alguns especuladores perdem fortunas e outros ganham.

Um dia estes aparecerão.

Eu não sou casado...

... e não sou gay, ora bolas.

Que polêmica mais besta esta que estão fazendo com a propaganda eleitoral de Marta Suplicy. É preconceituoso perguntar sobre o passado e o presente do candidato? Sobre questões de cunho pessoal? Preconceituoso é quem considera homossexualismo defeito e Marta pode ter vários defeitos, mas este não.

Preconceituoso é o jornalista Ricardo Noblat: "O comercial que pergunta se Kassab é casado, se tem filhos, é preconceituoso, sim. É sexista, sim. Como seria preconceituoso e sexista um comercial que insinuasse que Marta traiu o ex-marido antes de se separar dele", escreveu em seu blog. Isto sim é tentar utilizar questões de cunho pessoal contra um candidato. As questões matrimoniais de Marta dizem respeito a ela e a quem é atingido diretamente, assim como a sexualidade do prefeito Gilberto Kassab é um problema dele.

Fato: Quem era Kassab há quatro atrás? O povo de São Paulo sabe quem ele é? A história dele, do partido dele? O povo não elegeu Kassab. Ele é o atual prefeito tendo sido eleito vice de José Serra, que quebrou promessa de campanha e saiu para concorrer ao governo do Estado.

Que este resto de campanha se baseie na comparação de administrações e programas.

10.10.08

A onda vermelha não foi uma tsunami...

... foi só uma marolinha.

Primeiro permitam-me pedir desculpas e explicar. Só hoje, sexta-feira, comento aqui os resultados do primeiro turno porque voltei de Natal para Brasília de carro (e haja PAC nas estradas) e só cheguei na quarta-feira. Na quinta descansei e agora volto a programação normal. Vamos lá.


O nível da discussão política destas eleições foi muito baixo. Boa parte das campanhas se deu no esforço dos candidatos de se mostrarem amigos de infância do presidente Lula, outra parte foi envenenada pelas velhas práticas, como a compra de votos. E ainda tem gente que chama nossas eleições de festa da democracia. Que democracia? Vivemos um arremedo de democracia.

O que ficou claro nesta eleições é que nem com 80% de popularidade Lula não elege poste. Perdeu o primeiro de São Paulo e perdeu feio no primeiro turno em Natal (as duas cidades que ele mesmo estipulou como prioridades). Outra prova de que a alta popularidade do presidente não faz milagre é que sua maior votação proporcional nas eleições de 2006 foi no Amazonas e o candidato do PT à prefeitura de Manaus ficou na quarta colocação.

De forma geral, os resultados foram positivos para o PT, é verdade, mas poderiam ter sido muito melhores. O partido se esforça dia-e-noite para ser "o partido do Lula", um grave erro histórico. Lula é um líder carismático, foi fundador e presidente do PT, eterno candidato do partido à presidência da República, mas um partido não pode se resumir ao seu maior líder. Depois pode acabar como o PDT, viúva do Brizola.

Ora, não é o PT que precisa do Lula, é o Lula que precisou e precisa do PT. Precisou porque só chegou onde chegou por ter por trás o PT, com os sindicatos, movimentos sociais, setores progressistas da Igreja Católica, estudantes etc. E precisa porque não tem outro caminho para ele fazer a sucessão. Ou ele vai colocar a ministra Dilma Rousseff em outro partido pra lançá-la candidata? E o PT, que viu Lula afastar sua imagem do partido nos momentos de crise e compor um governo com forças conservadoras, se esforça para ser apenas o "partido do Lula" e engolir a seco a "candidata do Lula". Ora, ninguém é candidato de alguém, candidato é de algum partido. Dilma Rousseff é do PT? Dilma é petista? Em quantos Processos de Eleição Direta (PED's) ela se envolveu? Quantos congressos? Quantas eleições disputou? Qual a defesa que ela fez do partido durante a crise?


Feliz Natal?

Não posso deixar de falar especificamente de Natal, onde acompanhei de perto processo. A candidata do PT (pela quarta vez), deputada Fátima Bezerra conseguiu os apoios do atual bem-avaliado prefeito, da bem-avaliada governadora, do presidente do Congresso Nacional e dono da emissora afiliada à TV Globo no estado e de sua excelência o presidente Lula e mesmo assim perdeu no 1º turno. Difícil explicar.

O partido começou errando na escolha do candidato. Fátima foi escolhida tendo cerca de 30% de rejeição do eleitoral (por motivos preconceituosos) enquanto o outro pré-candidato petista, o deputado estadual Fernando Mineiro, que foi vereador por quatro mandatos em Natal, tinha 7% de rejeição, mas a deputada costurou por fora do partido apoios para o seu nome e acabou forçando a barra por mais uma candidatura sua.

Venceu Micarla de Sousa (PV), filha do falecido senador Carlos Alberto de Sousa e apoiada pelo senador José Agripino Maia (DEM). Parabéns, hein Natal.

Impressão minha?

Envelheceu?

Antes



Depois

9.10.08

Cheguei

Pronto estou em Brasília.

Calma, filhotes de Reinaldo Azevedo. Comentarei os resultados do primeiro turno sim, ainda hoje.

7.10.08

SE NADA FOR FEITO...

De um lado, os analistas econômicos, aliás jornalistas-economistas, com as suas análises, todos fazendo uma radiografia da crise econômica atual com o máximo de explicações. Do outro lado, uma equipe de economistas, do Banco Central, do Ministério da Fazenda, do Ministério do Planejamento, apenas para citar algumas equipes, preocupados, todos eles, com o desenrolar da crise.

Sem dúvida que os formuladores de políticas econômicas e suas equipes de assessores monitoram tudo o que acontece na economia nacional e também internacional, desenhando cenários, em forma de prospecção sobre o comportamento das macro-variáveis.

É preciso fazer alarde sobre isso? É necessário dizer aos investidores que a economia vai mal e está tudo perdido? Não e não. O mercado pode até perceber, através das suas análises uma situação pior do que a que está sendo divulgada pelas autoridades econômicas, não por comodidade destas, mas para não afugentar os investidores.

Está na moda dizer que a crise já chegou às empresas brasileiras e já atingiu a economia real. O que é a economia real? Ela é formada pelo fluxo de fatores de produção, os quais são utilizados pelas empresas e os transformam em bens e serviços, que são colocados à disposição das pessoas. Em outras palavras, é o PIB. Em contrapartida, existe o fluxo monetário, formado pelo volume de moeda, sob as suas diversas formas, que circula na economia. Como deve haver um equilíbrio entre os dois fluxos, uma crise no fluxo monetário tem como conseqüência uma crise no fluxo real da economia. Neste caso, haveria uma redução na quantidade de bens produzida em determinado período.

O efeito de uma crise pode não se revelar de imediato. É até de se esperar que a crise de hoje terá reflexo no PIB de 2009. De 2009, é bom que se repita!

Leio o blog da Miriam Leitão........ só catástrofe! Vejo, pelo noticiário da televisão, que a China está prevendo um crescimento de 10% da sua economia. Leio o Relatório de Mercado, que é consolidado pelo Banco Central a partir das perspectivas dos diversos agentes econômicos. Na edição do dia 03/10, a previsão era que a economia brasileira cresceria 5,18% em 2008; a nova previsão, de 10/10, é que a economia crescerá 5,20%.

Há algo de errado nas análises!

Todos hão de concordar em alguns pontos. É certo que teremos problemas no fluxo de capitais em direção ao Brasil. Mas o governo flexibilizou os recolhimentos compulsórios dos bancos, do que resulta uma injeção adicional de R$ 23 bilhões na economia. Fala-se também que as empresas exportadoras estão se ressentindo da falta de financiamento para as suas exportações. Não vamos ignorar que as nossas reservas internacionais estão superiores a US$ 206 bilhões e basta uma decisão da equipe econômica para elas passarem a ser usadas.

Talvez, uma análise desapaixonada e consistente poderia começar com a seguinte frase: “se nada for feito pela equipe econômica....” Mas, o Estado existe para isso.......também.


Newton Braga,
Professor de Economia do Instituto de Educação Superior de Brasília (IESB)

5.10.08

Votos do Blog do Braga

O Blog do Braga tem sede em Brasília, onde não há eleições municipais, mas acompanhou as campanhas o quanto pôde e vem a público, a algumas horas do início da votação recomendar alguns votos.


Natal = Fátima Bezerra (PT). O senador José Agripino (DEM) que me desculpe, mas o belo sorriso da deputado Micarla de Sousa (PV) não me convence.

Recife = João da Costa (PT). O candidato está para o atual prefeito João Paulo assim como Dilma Rousseff está para Lula. Foi o braço direito de uma administração bem sucedida e o trabalho merece continuar.

Salvador = ACM Neto (DEM). O deputado merece ir para o segundo turno e sofrer uma fragorosa derrota, preferencialmente com a eleição do deputado Walter Pinheiro (PT), homem correto que pode ajustar os rumos da bela capital baiana. Tchau carlismo.

Fortaleza = Luizianne Lins (PT). Boa prefeita, merece continuar.

São Luís = Flávio Dino (PCdoB). Melhor deputado de primeiro mandato, Dino parece ser o único capaz de evitar a eleição de João Castelo (PSDB), representante do que há de mais atrasado na política. E o PCdoB tem que eleger alguém em algum lugar.

Belo Horizonte = Jô Moraes (PCdoB). Verdadeira candidata da esquerda.

Rio de Janeiro = A política do Rio de Janeiro me desanima. Os cinco primeiros colocados nas pesquisas são bem fraquinhos, alguns piores do que isto, como o oportunista Eduardo Paes (PMDB). Alessandro Molon, Chico Alencar e Paulo Ramos seriam prefeitos combativos, algo necessário para o Rio.

São Paulo = Soninha (PPS). Apesar do partido, Soninha é qualquer coisa, menos a mesmice e ela vencer Paulo Maluf seria simbolicamente bonito para a política. No segundo turno é Marta Suplicy (PT).

Porto Alegre = Luciana Genro (Psol). Mesma sem chances de ganhar é candidata do Psol que chega mais próxima da vitória e seria interessante ver o Psol sendo governo em algum lugar. No segundo turno Maria do Rosário (PT) ou Manuela D'ávila (PCdoB), pela esquerda e pra desagradar a Lúcia Hippolito.

Curitiba = Lauro Rodrigues. Pela clareza com que expõe sua idéias e para não ir atrás do consenso de Beto Richa.

Goiânia = Candidato do PPS, não. Candidato do Psol, menos. Sandes Júnior, PP só na PQP. Íris Resende, desespero. Eleição pior do que a do Rio de Janeiro.

1.10.08

Continuo dando um tempo


Pessoal, o Brasil é muito melhor do que Brasília, aquela ilha de fantasia.

Acompanho de perto a reta final da disputa aqui de Natal e a coisa anda animada. As últimas pesquisas, feitas depois da vinda do presidente Lula, apontam uma queda da candidata petista Fátima Bezerra e um crescimento de Micarla de Sousa, candidata apoiada pelo senador José Agripino Maia (ex-PFL), invertendo a tendência que se apresentava antes da presença do presidente na capital potiguar.

Eu, que vi o governador violador de painel perder 10% de intenção em um único dia (clique aqui para relembrar), não dou credibilidade a estas pesquisas. O clima na cidade, ignorando-se as pesquisas, é de que a disputa não termina em 5 de outubro.

Se Micarla for eleita será muito feio para o PT e para toda a coligação. Fátima tem o apoio dos dois candidatos que disputaram o segundo turno da apertada eleição para o governo do estado em 2006, a governadora Wilma de Faria (PSB), e o presidente do Congresso Nacional Garibaldi Alves Filho (PMDB). Além do apoio do atual prefeito, Carlos Eduardo (PSB), e, claro, de sua excelência o presidente da República, que vê nesta eleição o primeiro passo para derrotar Agripino em 2010.



Faltou pragmatismo

Tá bom, não é nada mal ter todos estes apoio, mas se a eleição terminar no 1º turno muito se deve pela falta de outros candidatos competitivos. O terceiro colocado nas pesquisas, Miguel Mossoró (PTC) não chega a 5%. O PSB ou o PMDB ajudariam mais lançando um candidato que, pelo perfil, tirasse votos de Micarla. 

Vale lembrar o exemplo do Maranhão, onde, para derrotar o clã Sarney, lançaram-se candidatos 
Jackson Lago (PDT), que alcançou o segunto turno e foi eleito, Edson Vidigal (PSB) e Aderson Lago (PSDB) . Todos se uniram no segundo turno, venceram a eleição e apoiam o governo. Aderson, inclusive, é o chefe da Casa Civil do governo.




Voto de blog

Parabéns os blog do Noblat e da Lúcia Hippolito por declararem quais os candidatos que eles apoiam nestas eleições municipais. Bom exemplo.



Gilmar Mendes

Tenho tido pouco tempo para ler jornais e revista durante esta viajem, mas li a entrevista do juiz Fausto de Sanctis a revista Época. É gravíssima e inoportuna. Gravíssima porque se vivéssemos numa democracia o Senado Federal limparia sua pauta para votar o impeachment do ministro Gilmar Mendes (PSDB-MT) e inoportuna porque aconteceu a uma semana das eleições municipais e o mundo político, portanto, não deu a mínima. Alguém vai parar Gilmar Mendes?