20.12.06

Com a palavra o Senhor Educação

Nesta tarde-quase-noite do dia 20 de dezembro o senador Cristovam Buarque (PDT-DF) concedeu uma entrevista a este blog no cafezinho do senado.

Blog do Braga: Senador, durante sua campanha a presidente vossa excelência, vez ou outra, falou sobre educação...
Cristovam Buarque: Vez ou outra não, sempre.

BB: Sim, e várias dessas vezes vossa excelência falou sobre a federalização da educação. Talvez essa idéia, que é muito boa, não tenha ficado muito clara. Esclareça ao leitor do blog no que consistiria esta federalização.
CB: Quando alguém encontra petróleo no Brasil no dia seguinte ele já é da Petrobrás. Quando nasce uma criança ela é só municipal. Uma criança também é um poço do petróleo a ser cuidado para cuidado. O município não pode fazer isso. Os municípios são muito pobres e desiguais.
É necessário nós equipararmos os salários e a formação professores. Os funcionários do Banco do Brasil, por exemplo, recebem praticamente o mesmo salário em qualquer cidade do país. Temos de igualarmos a estrutura das escolas e conteúdo dado nelas.
Seria bom também que houvesse uma Lei de Responsabilidade Educacional. Não existe uma Lei de Responsabilidade Fiscal que os municípios têm de cumprir junto ao Fisco? Então, por que não criar uma lei para que os prefeitos passem a ter mais responsabilidade com a educação?

BB: Vossa excelência acredita que com isto uma escola aqui da Asa Sul seria do mesmo padrão de uma escola de Chapadinha?

CB: Não só isso, elas teriam padrão europeu, mas isto leva tempo, não se faz do dia pra noite.

BB: No governo Lula nós tivemos avanços como o ProUni, o Fundeb, as cotas. Este governo está caminhando para uma revolução doce?
CB: Não, o ProUni e as cotas afetam só o ensino superior e o Fundeb acabou de ser votado, ainda não trouxe nenhum benefício e não vai fazer muita diferença. É claro que a educação não vai piorar, mas vai melhorar muito pouco. Prova disso é que o Fundef já está em vigor há dez anos e o que mudou? O problema da educação no Brasil não é só dinheiro.

BB: Vossa excelência já falou que R$ 7 bilhões seriam suficientes.
CB: Sim, e eles dizem que o Fundeb vai trazer R$ 2 bilhões, mas é mentira, é só R$ 1 bilhão. O outro bilhão já é da educação. R$ 300 milhões da educação para jovens e adultos, R$ 500 milhões do ensino fundamental e R$ 450 milhões que era da rúbrica do Fundef, isso tudo a grosso modo.

BB: Vossa excelência também já defendeu a divisão do ministério da Educação em dois.
CB: Sim, deveria ser criado um ministério só para a educação de base. Enquanto isto não ocorrer o governo não vai dar a atenção que a educação de base merece.

BB: Mudando de assunto. Vossa excelência foi ministro neste governo e saiu sendo demitido por telefone. Como isso aconteceu?
CB: Isso você tem que perguntar pro presidente Lula.

BB: Foi por brigas que vossa excelência teve com o José Dirceu?

CB: Isto eu não sei.

BB: Alguns críticos seus dizem que vossa excelência foi demitido por telefone porque sabia que sairia do ministério e viajou duvidando que o presidente Lula teria coragem de lhe demitir a distância.
CB: (Com um sorriso no rosto de quem não acredita no que está ouvindo) Isto é totalmente mentira. Primeiro que eu não sou de duvidar da coragem do presidente e se eu fosse o presidente e um ministro fizesse isso aí era que eu demitiria mesmo.

Eu saí do gabinete do presidente direto para o aeroporto e minhas últimas palavras para ele foram "Nos vemos em Nova Deli, presidente". Eu fui a Portugal lançar um livro e depois me encontraria com a comitiva presidencial na Índia. Tanto que os acordos que seriam assinados entre o Brasil e a Índia tiveram de ser refeitos porque já estavam com meu nome no documento.

BB: Mas segundo uma fonte (que obviamente não posso revelar) vossa excelência e o presidente do PT/DF já haviam sido comunicados da sua demissão.

CB: Isto nunca existiu. Quando eu ia saindo do Palácio o Gilberto Carvalho (Chefe de Gabinete do Presidente) apertou minha mão e disse: Na educação não haverá mudança. Tanto que quando eu voltei o PT fez uma enorme recepção para mim.

BB: E por que vossa excelência saiu do PT?

CB: Eu ainda fiquei no PT mais dois anos depois desta demissão. Eu saí do PT porque vi que o partido já não era mais um partido de mudança, que não tinha mais vigor transformador.

BB: O PDT tem?

CB: Sim, e o PDT tem como base a educação que eu tanto defendo. Continuo sendo de esquerda.

BB: Mas vossa excelência não tem problema.

CB: Não até porque sempre fui bem moderado, diferentemente da maioria do PT.

BB: Qual será o papel do PDT no governo Lula e no governo Arruda?
CB: Eu acredito que nós devemos dar um voto de confiança ao Arruda.

BB: Mas o Reguffe, único deputado distrital eleito pelo PDT, é firme em se negar a fazer parte da base de apoio do governo Arruda. O PDT está rachado?
CB: Não, só que há divergências. O que é muito bom na democracia.

BB: Vossa excelência pretende ser candidato a presidente em 2010?
CB: Não sei. Posso ser candidato a presidente de novo, posso ser candidato a senador e posso não ser candidato a nada.

BB: E a governador?
CB: Não, a governador não. Acho ruim voltar a um cargo que você já ocupou. Quando saí do ministério fui a cada cidade do DF reconstruindo o partido e alguns diziam que era porque eu queria ser candidato a governador, mas já falei, inclusive falo desde 2000, não quero mais ser candidato a governador.

BB: Qual sua posição sobre o aumento dos salários dos parlamentares?
CB: Eu já fiz até artigos sobre este assunto. Isto é um suicídio. Querem desmoralizar o congresso para fortalecer o Lula.

BB: O PT está por trás deste aumento?
CB: Não sei, às vezes as pessoas fazem uma coisa com outra intenção, mas é isso que acaba acontecendo. E isto é perigoso já que nós podemos entrar num regime, eu não diria autoritário, mas desinstitucional no qual o poder executivo tenha muito mais poder podendo inclusive criar a possibilidade de um terceiro mandato.

BB: Vossa excelência acredita que pode haver uma rereeleição?
CB: Acho que é mais fácil do que a aprovar a primeira reeleição porque ali que se quebrou a tradição.

BB: Ainda sobre o aumento, vossa excelência não defende nem um aumento no nível do que foi dado ao salário-mínimo nos últimos quatro anos?
CB: Se o aumento for o dado ao salário mínimo eu até aceito, mais do que isso é absurdo. É como você aumentar o salário de um médico, mas tirar o bisturi dele e o nosso bisturi é nossa credibilidade.

BB: Muito obrigado pela entrevista senador.
CB: De nada, mas agora vá até esta sua fonte que falou que eu sabia que ia ser demitido e diga que esta informação é mentirosa.

BB: Podexá.

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